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quinta-feira, 28 de novembro de 2019

A Vila de Nossa Senhora da Luz e a chegada da Ordem Terceira:


Curityba surge em meados de 1668, quando os bandeirantes instalaram-se na região. Eleodoro Ébano pereira, Baltasar Carrasco dos Reis e Mateus Martins Leme são os primeiros grandes nomes da fundação do pequeno povoado de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais. Em 29 de Março de 1693 passa a ser reconhecida como Vila, tendo na época cerca de noventa moradores. 

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Fundação de Curitiba, obra de Theodoro de Bona.

Antes mesmo disso, o missionário franciscano Frei Bartolomeu do Amparo já havia chego à região de Curitiba, entre 1681 e 1682.

A Ordem Terceira de São Francisco já havia se estabelecido em Paranaguá em 1714, e décadas depois alguns missionários subiram a serra para ajudar na colonização da região de Curitiba. Entre eles, confirmam-se as presenças de Frei Jerônimo Rodrigues, em 1736, e Frei Domingos da Purificação em 1740. Nesta época a vila ainda vivia da mineração de ouro, agricultura de subsistência e do comércio com os tropeiros que passavam por Curitiba em suas viagens entre Sorocaba e Viamão, no Rio Grande do Sul, levando as mulas para as Minas Gerais.

No mesmo ano de 1740, o Frei Manuel da Trindade era o diretor da Ordem Terceira em Paranaguá, e foi ele quem resolveu organizar a mesma Ordem na Vila de Nossa Senhora da Luz. 

Na vila residia um certo Simão Gonçalves de Andrade, que era membro da Ordem Terceira de São Francisco na cidade de Itu, São Paulo, onde a Ordem existia desde 1697. Simão auxiliou Frei Manuel na organização dos terciários na vila, servindo como mestre e primeiro ministro na Ordem, como o próprio Frei Manuel subscreve em 2 de Fevereiro de 1746, sendo este o ano oficial de surgimento da Ordem Terceira em Curitiba. Dois anos depois, Frei Manuel foi substituído como comissário por Frei Félix de Sant’ana e Frei Sebastião de Santa Rosa Caminha.

A Ordem, porém, ainda não possuía uma capela.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

A Capelinha do Terço


Acontece que por volta de 1730 um certo Frei Antonio do Extremo, franciscano que viajava entre Sorocaba e Sacramento, na Argentina, coletando esmolas para os lugares Santos da Terra Santa – os franciscanos mantém as igrejas católicas da Terra Santa desde 1342. Em passagem pela Vila de Curityba, notou que havia apenas uma precária igreja Matriz.

A igreja Matriz, aliás, que abrigava a padroeira da vila, foi construída originalmente em 1654, reconstruída em 1720, mas sempre esteve em estado precário por ter sido construída sobre desconhecidos lençóis freáticos. Há uma lenda que conta a escolha do local da construção da primeira igrejinha, mas por ser apenas uma lenda, não a levarei em conta. O fato é que era a única igreja da pequena povoação.

Frei Antonio convenceu, então, o Tentente Coronel Manuel Rodrigues da Motta e sua esposa Elena Rodrigues Coutinho a erguerem uma nova capela na vila, dedicada a Nossa Senhora do Terço. Para isso, eles contratam o mestre construtor Luiz Palhano de Azevedo. O próprio frade juntou recursos com a população para a construção da capela.

Nos Boletins do Arquivo Municipal de Curitiba (disponíveis na internet) encontramos Luiz Palhano citado num termo de posse e juramento dos oficiais que passaram a servir no ano de 1723. Logo em seguida um termo de serviço para construir uma ponte, onde é citado Luiz Palhano. Uma citação mais relevante para a nossa pesquisa se dá no volume 13 dos Boletins, na página 38, escrito em 7 de Março de 1737, quando solicita-se a Luiz Palhano de Azevedo – dito no documento como sendo “homem carpinteiro” – para que fizesse reparos nas paredes da Cadeia da vila, pois “a cada instante estarem os prezos arrombando”. Porém, Luiz haveria respondido que “por horas não podia ajustar” por estar “de andar com as obras da Igreja”.

O volume 13 destes Boletins trazem uma carta dos habitantes da vila de Curitiba ao Senado escrita em 1763, reclamando dos altos prejuízos que estavam tendo em virtude do estabelecimento de duas “lojas de fazendas” a duas léguas de Curitiba, aproximadamente 8 quilômetros, pois as tropas que com frequência viajavam entre o “Rio Grande de São Pedro do Sul” em direção a “toda esta america” – isto é, os tropeiros que movimentavam a economia de Curitiba no início de sua história – deixaram de visitar a cidade e faziam negócios nessas duas lojas distantes, ficando a Vila de Curitiba despovoada. Cita como um dos prejuízos que “a Igreja que se acabara de levantar” sofria “por muita falta de gente que vai e não torna”. Nesta época a igreja mais recente era a Capela Nossa Senhora do Terço!
Representação de algumas das rotas dos tropeiros, entre Viamão e Sorocaba. Curitiba estava como um dos entrepostos comerciais desta rota.
Quase ao mesmo tempo, a poucos metros dali, a Irmandade dos Homens Pretos de Nossa Senhora do Rosário erguia sua capela, que foi concluída em 1736. A Capela do Terço fica pronta no ano seguinte, 1737. Por isso é considerada a terceira igreja de Curitiba. 

Neste mesmo ano, envia-se ao bispo do Rio de Janeiro, Dom Frei Antonio de Guadalupe, pedindo a provisão para a capela. Essa provisão é concedida apenas em 7 de Fevereiro de 1738, e o vigário de Paranaguá é autorizado a benzer a capela.

Abro aqui um breve parênteses para falar da cidade de Paranaguá, a primeira cidade do estado. 

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Foto do porto de Paranaguá, há muito tempo atrás

Sua ocupação pelos europeus iniciou já em meados de 1500, na ilha de Cotinga, que serviu de base para os colonizadores que se aventuravam entre os índios no continente. Nesta ilha encontra-se até hoje a igreja mais antiga do Paraná, a capela de Nossa Senhora das Mercês, de 1677. Contudo, no continente já existia uma capela a Nossa Senhora do Rosário em 1578, sendo demolida posteriormente para a construção da atual Igreja Matriz Nossa Senhora do Rosário (agora catedral), de 1863. E em 1784 construiu-se a Igreja de São Benedito, usando materiais da Igreja de Nossa Senhora das Mercês, da ilha de Cotinga. Esta capela das Mercês foi reconstruída nos anos 90.

Ou seja, podemos observar que a presença religiosa em Paranaguá já existia nas primeiras décadas da colonização brasileira. Já havia igrejas construídas na vila muito antes de se sonhar com a existência de Curitiba. A vila de Paranaguá era a cidade mais importante do que hoje é o Paraná. E a pequena vila de Nossa Senhora da Luz dependia muito das provisões de lá, principalmente por que o Porto de Paranaguá era a principal via de comunicação com o resto do país.

Contudo, Curitiba e Paranaguá são separadas por uma cordilheira de montanhas, e em uma época em que ainda não existia a Estrada de Ferro, nem a Estrada da Graciosa e nenhuma outra das auto-estradas que temos hoje, ainda era muito difícil e demorada a comunicação e a viagem entre a vilas do litoral e do planalto. Por isso, levaram dois anos para que o padre Cristóvão da Costa Oliveira pudesse vir a Curitiba, realizando o rito da bênção da capela de Nossa Senhora do Terço em 5 de Fevereiro de 1740, juntamente com o padre José Rodrigues França e Manoel Domingos Leitão.